domingo, 6 de novembro de 2016

Cena 124:
Não quero nada que venha do senhor.
Não anseio flores, nem rimas, nem atenção.
Não me pergunte como foi o dia.

Não quero teu esforço.

Desobrigada.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Cena 154:





Foto de RL Klippel (https://www.facebook.com/klippels.garden)


Atenção aos artistas, visitantes no Mundo Bélico.

Aos que chegam de navio, paquete, batel, bote, canoa ou escaler: Levantem suas armas!
Ergam-se com fragilidade. Pois aqui, demostrar fragilidade é ter coragem.
Lutem cheios de doçura. Pois aqui, ter doçura é um ato de marginalidade.
Trasbordem-se em sentimentos. Pois aqui, ter veias abertas é ser selvagem.
Se nos chutarem, levantemos nossa letras.
Se nos humilharem, levantemos nossos pincéis.
Se apagarem nossa luz, levantemos nossas câmeras.
Se nos torturarem, sejamos atores.
Da água do planeta, somos pescadores artesanais.
Dos ventos do mundo, somos caçadores viscerais.
Da terra que nos prende, somos transnacionais.
Do fogo que assusta, fazemos sombra, luz e cores.
Lutemos!
Estamos despidos e munidos: voz, corpo, sangue e alma.
Sejamos bichos da Lua e do Sol. Sejamos nós.
Com tinta, com escrita, com encenação.
Lutemos!
Artistas, visitantes no Mundo Bélico, podem adentrar ao cais.
Há tantos outros como vocês por aqui.
Uni-vos e vivamos.
Nossa vida é nosso amor. Nosso amor é nossa arte.
Vençamos!
Aline Baú

sábado, 28 de novembro de 2015

Cena 153: Leite derramado. Lamentos de Ivotiara

(des)Humanidade de infinita desumanidade e injustiça não tenhas piedade de mim.
Pois eu, que sou mais água que miúdos, a cada soco no estômago: de córrego torno-me cachoeira.
Não tenhas piedade. Encaixa-me em todas doenças e julgamentos. Pois eu, que sou mais água que miúdos , encharco a madeira que me engaveta,

Continuarei abraçando as dores do mundo.
Continuarem amando os que se apresentam diante de mim.
Continuarei sentindo a dor alheia.
Continuarei sendo a boba, de todas as cortes, para os olhos ainda insensíveis.

Padronizados, médicos, cientistas, preconceituosos e aos que me maldizem. Não tenham piedade de mim por ser da partícula que sou. Peço do fundo da minha alma: Não tenham piedade.
Pois se do soco no estômago torno-me cachoeira. Que me espanquem como o marido em desequilíbrio, que é feito de mais miúdos do  que água. Que me humilhem e me desprezem como o
o mau rei, que é feito de mais miúdos do que água.
A todos os seres ainda sem saneamento básico: Que lancem seus dejetos.
Pois me erguerei mil vezes até tornar-me catarata. 
Agradecerei com bom tom.

(des) humanidade, eu que sou mais água  do que miúdos, confesso em carta timbrada e assinada com meu sangue: Há mais dos meus por aqui.


Deus, Mestres ascensionados, Budas, Energias do Universo, Jesus Cristo, Orixás e a todos os outros que minha ignorância não o fez presentes aqui: Não tenham piedade de mim.
Porém, peço perdão por, eu que sou mais água do que miúdos, não aceitar a carne que me envolve. A dor do carbono que me abate.
Ajoelho-me aos seus pés: Perdoem-me por não aceitar o ventre do planeta que aterrizei.

Aceitem minhas sinceras desculpas por vislumbrar mais minhas imperfeições e mediocridades do que minhas qualidades e potenciais. Perdão por afogar-me em minhas correntezas e, distraída com a dor do mundo, não ver a brincadeira dos colibris.
Perdão pela compaixão indisciplinada. Água é mais agradável em boa temperatura.

Mais ainda, peço desculpas aos que prejudiquei com as águas turvas que doem em meu peito.
Aos que sentiram e viram a expurgação das minhas indignações. Aos que presenciaram minha falta de educação ao arrotar lama por aí.
Minha alma, que é mais água, regurgita tripas e corações. Falta de elegância por prender as nascentes que brotam em meus olhos.

Se ainda houver algo mais ainda do que mais ainda, peço perdão aos socorristas. Das vezes que quando me afoguei, vieram proferir consolos, caniços e tarrafas ao meu pedido de ajuda desagregado.
Diques e muros não me prendem, iscas não me atraem. Bicho feito de água e cheio de dentes morde as linhas da tarrafa,
 A destreza é deixá-lo subir à superfície. Às vezes pelo amor, às vezes pela dor.

Também peço calma. Nós, que somos mais água que miúdos, sempre acabamos vendo a luz do sol e brincando com as marés lunares.
Não se penalizem, Para vocês meu amor mais puro e fraterno.



A todos da terra e dos céus não tenham piedade de mim. Não sou digna de pena.
Pois de Santa nem a graça tenho,

Sou consequência das minhas escolhas. Sou fruto do mundo.
Apesar de menina da Lua,
Sou nascida da terra, parida na rua.
Em meu nome tenho Filha, em meu sobrenome tenho Puta.

Com água terna e maré tranquila, termino aqui.
Com amor a este mundo e a todos que o habitam.
Assinado, Filha da Puta.













quinta-feira, 6 de março de 2014

105:Queridos afetos e desafetos, bom dia.


Deixo aqui registrado que sairei de casa às 10h da manhã do dia de hoje.
Irei até a padaria mais próxima e pagarei cem reais por um café sem açúcar e um delicioso pão de queijo. Beijarei na testa a pessoa que me servir.

Após, irei pegar o ônibus errado que me levará até a rodoviária.
No ímpeto de voltar para casa, subirei em um ônibus interestadual com antena Wifi e televisão. Entretanto, estarei sem celular, pois o trocarei - sem querer - por um MP4 antigo.

Chegarei em alguma cidade desconhecida que terá os ares do meu bairro de infância.
Tropeçarei com o vento e cairei nos braços de algum desconhecido.
Xingarei os que me amam. Darei lindas rosas para os que desejam a minha morte.

Conversarei com um ancião por horas a fio.
Relembraremos os tempos de Estado Novo.
Analisaremos, sabiamente, a nova geração.
Iremos dizer: “ Na minha época, apesar de tudo, era muito melhor”.
Ele, o homem mais lindo do mundo, me dirá que tenho muito tempo pela frente e que fico muito bem com as minhas saias de poá. Naquele instante, ficarei perdidamente apaixonada e estarei à mostra para os olhos doentes que nunca me enxergarão.

Fugirei e... Voilá!! Recitarei poesias para os surdos e irei contracenar com os mudos.


Já cansada do dia exaustivo, terei a melhor janta de todas - na sarjeta - com amigos que encontrarei por lá. Iremos rir de nossa condição e jogaremos bolinhas de papel em quem passar. Teremos a maior lua de todas.

Ao chegar a  madrugada, irei à procura do mar. Encontro um rio e chego em outro país.
Falarei espanhol com ingleses, italiano com alemães, português com árabes. Comprovarei o irrefutável - que todos são um só.
Obviamente, aproveitarei para conhecer o lugar e aceitarei panfletos - certa de que são entradas para uma bela festa. 
Pintarei com rímel minhas sobrancelhas e de batom vermelho minhas bochechas. 
Serei a mais bela do reino!


Termino a carta aqui, comunicando que não ousem em me segurar ou em me jogar conselhos de “cidadãos de bem”. Cuspirei na cara de cada um.
Só Deus, oxalá que exista, saberá o que será de mim.
Pois hoje, exatamente no dia de hoje, sairei de casa sem óculos (15 graus de astigmatismo de pura poesia).


Para os que eu amo, um segredo: Exatamente às 7 da manhã do dia seguinte, chegarei em casa e verei que todo o tempo estive a duas quadras da rua em que vivo... Mal sairei do lugar...
E sim, perdi – mais uma vez- meus óculos.